No último fim de semana, durante a XXII COPANI, vivi um daqueles momentos em que a história deixa de ser apenas uma lembrança distante e volta a se apresentar diante de nós, com rosto, voz e emoção.
Tive a honra de encontrar, mais uma vez, a Sra. Akie Abe, viúva do ex-primeiro-ministro do Japão, Shinzo Abe. Sua presença na Convenção Panamericana Nikkei foi um dos momentos mais marcantes do encontro. Não apenas pela importância política e histórica que o nome Abe carrega, mas principalmente pela forma humana, sensível e profundamente respeitosa com que ela se dirigiu à comunidade nikkei.
Em seu discurso, Akie Abe relembrou as visitas que fez ao Brasil ao lado do marido. Falou da emoção que Shinzo Abe sentia ao encontrar os nikkeis da América do Sul, especialmente no Brasil. Ela contou que, ao se aproximar do nosso continente, ele sabia que encontraria milhares de pessoas que mantiveram viva a ligação com o Japão, mesmo depois de tantas gerações, dificuldades e caminhos percorridos longe da terra de seus antepassados.
Essa fala me tocou profundamente, porque ela traduz muito bem aquilo que a comunidade nikkei representa: uma história de coragem, trabalho, família, educação, respeito e contribuição ao desenvolvimento dos países que acolheram os imigrantes japoneses. No Brasil, essa história é parte essencial da nossa identidade. Em São Paulo, ela está presente nos bairros, nas associações, nas escolas, nos templos, nos eventos culturais, no esporte, na gastronomia, no comércio, na ciência, na política e em tantas áreas da vida pública.
A COPANI tem justamente essa grandeza. Ela reúne nikkeis de diversos países das Américas para refletir sobre o passado, fortalecer os laços do presente e pensar os caminhos do futuro. Nesta edição, realizada em São Paulo, participantes de 22 países se encontraram para discutir o papel da comunidade nikkei diante dos desafios do nosso tempo. O tema “Leading the Change”, ou “Liderando a Mudança”, fala diretamente com essa responsabilidade: preservar valores, mas também olhar para frente; honrar a memória, mas também agir no mundo de hoje.
Para mim, esse reencontro com a Sra. Akie Abe teve um significado ainda mais especial por causa da minha própria história familiar.
Em 2014, meu pai, o saudoso deputado Jooji Hato, teve a honra de fazer o discurso de saudação da comunidade nikkei ao excelentíssimo Primeiro-Ministro Shinzo Abe, durante sua visita oficial ao Brasil para estreitar as relações entre os dois países. Eu estava presente naquela cerimônia. Lembro da importância daquele momento, da emoção das pessoas e do respeito com que a comunidade recebeu o primeiro-ministro japonês.
Na mesma visita, também acompanhamos a Sra. Akie Abe ao Festival das Cerejeiras. Foi um momento muito bonito, simbólico e afetivo. As cerejeiras carregam uma força muito especial para a cultura japonesa. Elas falam de beleza, passagem do tempo, memória e renovação. Estar ali, ao lado dela, naquele ambiente de celebração da cultura japonesa em São Paulo, foi uma lembrança que guardo com muito carinho.
Shinzo Abe foi uma das figuras políticas mais importantes da história recente do Japão. Sua trajetória também ficou marcada por sua relação de amizade com o Brasil. Um exemplo curioso, mas muito significativo, aconteceu nas Olimpíadas do Rio, em 2016, quando ele apareceu caracterizado como Mario Bros na cerimônia de encerramento, no Maracanã, para apresentar os Jogos de Tóquio. Foi uma cena leve, bem-humorada e histórica, que aproximou ainda mais o público brasileiro do então primeiro-ministro japonês.
Esse gesto mostrou algo que muitas vezes a política formal não consegue transmitir sozinha: simpatia, criatividade e carinho. Ao participar daquele momento com espírito esportivo e cultural, Shinzo Abe falou a uma geração inteira usando um símbolo conhecido no mundo todo. E fez isso no Brasil, diante do nosso povo, em uma celebração olímpica.
Por isso, a lembrança de sua trajetória se torna ainda mais profunda diante da tragédia de 2022, quando Shinzo Abe foi tristemente assassinado. Sua morte causou comoção em todo o mundo e deixou uma marca dolorosa na história do Japão e nas relações internacionais. Mas encontros como a COPANI ajudam a mostrar que o legado de uma pessoa não se encerra com sua partida. Ele continua na memória, nos gestos, nos vínculos construídos e nas causas que seguem adiante.
Ao reencontrar a Sra. Akie Abe em São Paulo, senti que aquela história iniciada muito antes, com a imigração japonesa, com o trabalho das famílias nikkeis e com a dedicação de tantas lideranças comunitárias, continua viva. Também senti a presença do meu pai nessa caminhada. Jooji Hato sempre teve profundo respeito pela comunidade nikkei e pela relação entre Brasil e Japão. Para mim, seguir esse caminho é também honrar o legado dele.
A COPANI nos lembra que identidade não é algo parado no tempo. Ela se fortalece quando é compartilhada, renovada e colocada a serviço das próximas gerações. A comunidade nikkei tem orgulho de sua história, mas também tem muito a contribuir para o futuro: na educação, na saúde, no esporte, na inovação, na cultura, na política e na construção de uma sociedade mais justa e preparada para os novos desafios.
Saí desse encontro com gratidão. Gratidão por reencontrar a Sra. Akie Abe. Gratidão por lembrar da visita histórica de Shinzo Abe ao Brasil. Gratidão por ter vivido, ao lado do meu pai, momentos tão importantes para a comunidade nikkei. E gratidão por ver São Paulo receber uma convenção tão relevante, que reafirma os laços entre o Brasil, o Japão e todos os nikkeis das Américas.
Seguimos honrando essa memória, fortalecendo esses vínculos e trabalhando para que as próximas gerações conheçam essa história e tenham orgulho de levá-la adiante.
